terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A Patagônia Desconhecida

As impressionantes paredes do Cerro Colorado. Foto Alessandro Haiduke

Os gauchos e o cerro Colorado - à direita. Foto Alessandro Haiduke

Don Marquez vive na Patagônia desde criança. Na juventude trabalhou nas minas, enchendo seu pulmão de poeira, enquanto os gringos acumulavam riquezas.
Hoje ele vive pastoreando suas ovelhas, montado em seu inseparável cavalo, senhor das estepes.
Para o gaúcho Marquez a Patagônia é o seu lar, distante dos ruídos e transformações do mundo moderno, pois como ele mesmo diz:
Não existe dinheiro no mundo que pague a vida em um lugar tranquilo.
Nessa imensidão mineral não existe rincão que ele não conheça.
Nos últimos anos novos visitantes tornaram-se frequentes. São os escaladores que, a cada ano, multiplicam-se na busca das inquietantes colunas de basalto do Cerro Colorado. O local, que antes era território somente dos majestosos condores, recebe em suas paredes incrivelmente verticais seres humanos que sobem e descem, esses conquistadores do inútil.


O Cerro Colorado está localizado na pequena cidade de Chile Chico, um ponto isolado do resto do Chile. Para chegar a esse lugar deve-se percorrer uma estrada de terra – que triplica o tempo da viagem –, ou utilizar uma barcaça, com duas saídas diárias, que atravessa o belíssimo lago General Carrera – segundo maior lago da América do Sul –, celebrado pelo escalador Lito Tejada Flores:


Cada um tem seu lago favorito na Patagônia. O lago Carrera é o nosso. É a jóia de Aysen, um lago mais azul que o céu, maior que o mapa, mais comprido que a rodovia e muito mais amplo que as lentes de nossas câmeras. Demasiado grande para ser louvado em uma só página ou num parágrafo repleto de adjetivos, porém merece cada um.


A maior cidade na região de Aysen é Coihaique, e o aeroporto mais próximo localiza-se em Balmaceda. É nessa região da Patagônia que se encontra o Cerro Castillo, um dos cumes mais imponenentes da região e local de referência para os escaladores de neve e gelo.
Chile Chico está localizado em uma rota tradicional de viajantes – com bicicletas, motocicletas e veículos – que desejam percorrer o caminho da Carretera Austral. Realmente as paisagens são deslumbrantes, sucedem-se as estepes aos pés das grandes montanhas, belos lagos com variadas nuances de azul, florestas de coníferas, uma paisagem exótica para um brasileiro.
Provavelmente muitos viajantes - mais atenciosos - fixaram seus olhares no Cerro Colorado, pois é uma elevação grandiosa que se destaca na paisagem. O Cerro começou a tornar-se conhecido da comunidade escaladora mundial quando Jim Donini – escalador estadunidense reconhecido principalmente pelas suas aventuras nas montanhas em Chaltén – em 2010 abriu algumas rotas no local e posteriormente divulgou fotos dessas paredes na internet.
Aos poucos as informações da localização começaram a circular com maior precisão e os escaladores, fugindo da instabilidade climática de Chaltén, visitaram o local em número cada vez maior.
Meu colega Otaviano e eu estávamos organizando uma viagem para janeiro de 2016. Entre tantos destinos possíveis, concordamos que seria interessante provar uma patagônia ainda desconhecida: o Cerro Colorado. Como o local ainda está sendo explorado, decidimos levar também material de conquista, com a esperança de abrir algumas vias novas.
Depois do cansaço da viagem - avião, van, taxi, barcaça – chegamos ao nosso destino e conhecemos o famoso anfitrião Don Marquez, que com seus cavalos levou as pesadas mochilas até o acampamento que nos abrigaria por todo o mês de janeiro. Trata-se de um lugar especial, com uma visão privilegiada do lago General Carrera, água fresca e a proximidade com as montanhas. Um dos únicos inconvenientes é que não existem árvores no local, e o sol diário acaba castigando os dias de descanso.
Organizamos o acampamento e subimos para escalar algumas vias curtas e fazer o reconhecimento do lugar. A primeira via que escalamos foi Flight of the Condors -7a, uma via de entalamento de dedos, estética e exigente. Já nessa primeira via percebemos que a graduação estabelecida segue o exigente padrão estadunidense de escalada em fendas, ou seja, em geral as rotas são mais difíceis do que estamos acostumados no Brasil. Escalamos mais algumas vias curtas e nos preparamos para uma escalada mais longa.
Alessandro na via Flight of condors. Foto Otaviano Zibetti
A próxima rota escolhida foi Fingers of Fathe -150 mts/7b, que chega ao cume da montanha. Trata-se de uma via de dificuldade moderada, onde é preciso negociar o acaso com as famosas cascaritas locais – agarras formadas pelo desgaste do basalto – que não dão nenhuma impressão de solidez, mas que inexplicavelmente não se rompem. Chegando ao cume, apreciamos a elegância dos condores em planar; descemos caminhando pelo outro lado da montanha.
Chegamos à conclusão que era hora de tentar abrir uma rota. Escolhemos uma linha próxima da parte mais imponente denominada Proa, onde não existiam vias segundo o croqui. Escalamos dois esticões e depois segui por uma linha sedutora de rocha avermelhada, mas ao longo da escalada encontrei marcas de magnésio. Como esperávamos abrir uma rota independente até o cume, desci e segui pela esquerda; outra desilusão: em um ponto da parede encontrei mais marcas de magnésio. Desiludidos, chegamos a um cordelete para rapelar, os dois esticões receberam o nome de Alegria de pobre dura pouco – 6°.
No dia seguinte a ideia de abrir uma rota até o cume não saiu da minha cabeça e decidimos então concentrar as atenções na parede denominada Escudo. Para acessar a base da parede é necessário escalar o chamado Zócalo. Chegamos à base da parede e, para garantir que não encontraríamos nenhuma via, decidimos escolher o centro da parede. Os dois primeiros esticões foram negociados entre fendas e as temidas cascaritas. À medida que subíamos o vento aumentava e em um momento estávamos ao sabor do violento vento patagônico. A escalada exigente tornava-se quase impossível, visto que o crux era conseguir se agarrar a rocha quando a rajada de vento varria a parede. O último esticão foi aberto devido a uma enorme quantia de orgulho e teimosia, pois a velocidade do vento só aumentava e assim terminamos a via E o vento levou -150 mts 7a/b.
Depois de um espaço para o descanso planejamos escalar a via The Magic Spatula – 150 mts/7c, pois tínhamos visto algumas fotos na internet que impressionavam. O primeiro e o segundo esticão da via mostraram-se bons, mas a melhor parte foi o terceiro esticão com 60 metros, uma fenda estreita onde os entalamentos de dedos e os microfriends são essenciais. Em seguida, escalamos o último esticão e rapelamos pela própria via.
Otaviano na via Magic Spatula.Foto Alessandro Haiduke

Otaviano na via Magic Spatula.Foto Alessandro Haiduke

O tempo passou e aos pouco a memória foi esquecendo o sofrimento com o vento e as pedras soltas na abertura da via E o vento levou. Vasculhamos as paredes e encontramos uma linha impressionante à esquerda da Proa. A primeira enfiada resultou difícil, tanto na técnica quanto na exposição. Otaviano progredia lentamente, negociando a segurança com um sequênica de microsttopers. Chegava a minha vez de guiar, e o panorama não se apresentava nada amigável: uma fenda estreita, as vezes inexistente, e que cruzava dois tetos em sequência. Tentei fazer todos os movimentos em livre, mas falhei em alguns trechos que são transpostos em french free. Chegando ao final do esticão, fui em direção a uma reunião fixa de outra rota. No meio do caminho me arrependi imensamente pois, ao dominar a coluna de basalto, percebi que ela está solta e balança ameaçadoramente de um lado para o outro. Desisti de usar essa reunião e continuei a escalar pela esquerda. Fiz uma reunião em móvel e, como não encontramos as chapeletas na mochila, decidimos continuar no outro dia.
No outro dia cedo decidimos tentar liberar o segundo esticão. Com a corda de cima consegui liberar todos os movimentos, e imagino deslumbrado um futuro onde algum escalador encadenará esses movimentos: um desafio e tanto.
A abertura do terceiro esticão foi problemática; fui para a esquerda e para a direita e não encontrei nenhuma solução, as fendas desapareciam. Sem opção, decidi seguir por um offwidth alguns metros à esquerda, que não parecia nada amistoso. Infelizmente, minha impressão estava correta, e fui obrigado a levantar a peça 4 por vários metros. Progredi e, com alguma dificuldade, cheguei ao final da rota, batizada de Faroeste Caboclo - 150mts. Sem dúvida, essa linha foi a mais bela de todas as nossas aberturas, e possivelmente é a rota mais difícil do lugar: o esticão chave possui a dificuldade de 8b/c, altamente técnico. Existe também uma variante menos exposta para o primeiro esticão chamada Vida de gado -7b.
Alessandro na primeira enfiada da via Faroeste caboclo. Foto Otaviano Zibetti

Alessandro na primeira enfiada da via Faroeste caboclo. Foto Otaviano Zibetti
Alessandro abrindo a segunda enfiada da via Faroeste caboclo. Foto Otaviano Zibetti
 
Otaviano abrindo a primeira enfiada da via Faroeste caboclo. Foto Alessandro Haiduke


Chegou o final do mês de janeiro, a comida e a viagem estavam terminando. Ainda tivemos tempo para repetir algumas vias e abrir mais duas rotas de monolargo: Mais sorte que juízo 7a e As quatro estações .
O setor ainda conta com várias possibilidades de abertura – nem sempre tão óbvias - e com certeza vale uma viagem, tanto pela qualidade da escalada, como pela beleza do lugar. Aqui fica um convite para os escaladores brasileiros descobrirem uma patagônia além do Fitz Roy e do Cerro Torre, uma patagônia desconhecida:


...Aysen, está separada da décima segunda região de Magallanes, a última do continente, não por fiordes, senão por um imenso campo de gelo. Isolada, separada do resto do Chile, livres de demasiada gente e demasiado progresso. Palena e Aysen se mantém incrivelmente frescas, naturais e belas. Em uma palavra: “desconhecidas”. Desconhecidas e por isso, inexploradas. A Patagônia desconhecida, o segredo melhor guardado do Sul. Lito Tejada Flores – A Patagônia desconhecida.


Para mais informações sobre as escaladas e o acesso:

www.pataclimb.com





3 comentários:

  1. Boa Alessandro!! Parabéns pelas conquistas e pela descrição desse belo local na Patagônia!! Grande Abraço de Minas e venha aqui nos visitar!! Muitas paredes para muita diversão!!

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