terça-feira, 6 de outubro de 2015

Oriente Médio em estilo tradicional


Não é somente na Europa ou nos Estados Unidos que os escaladores para ampliar os limites da aventura, escalam vias chapeleteadas utilizando somente material móvel de proteção. Um dos maiores exemplos dessa modalidade foi a ascensão da via Black Bean pelo escalador francês Arnauld Petit. No setor 3 de São Luiz do Purunã essa prática vem sendo realizada há algum tempo. Alguns exemplos dessa forma de ascensão são: Cicatriz – Elcio Muliki, Bicão – Alessandro Haiduke, Coliformes mentais – Elcio Muliki, Quando a mulher qué faz o que qué – Elcio Muliki e Alessandro Haiduke.
Apesar disso havia um projeto que habitava a mente dos escaladores. Há algum tempo que o Valdesir Machado falou que um dos seus desejos era escalar a via Oriente Médio 9A , integralmente com peças móveis. Naquele tempo ele era o único escalador a ter encadenado a via. Depois de anos de tentativa eu e o Elcio conseguimos encontrar uma solução para o crux e também encadenamos a via. Com isso o Elcio ao longo dos meses vinha ensaiando os movimentos para uma tentativa integral em móvel.
E foi nesse domingo – 04/10 – que o Elcio entrou muito concentrado e fez a primeira ascensão da via sem a utilização das chapas. O Valdesir recebeu uma injeção de ânimo e também entrou na via, havia esquecido todos os movimentos – como sempre o bom estilo Val -, mas com boa dose de critatividade completou a ascensão da via.
Essas escaladas são importantes pois a via Oriente Médio é um ícone do setor três, pela singularidade do movimento do crux.
Parabéns aos dois escaladores.
Seguem algumas fotos dessas escaladas:







sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Os 3 chapas - Ibitirati





Início da via 3 chapas
Estávamos seguindo com a caminhonete em direção à ponte quebrada. Antes de iniciar a caminhada já começava o esforço, era preciso arrastar as várias árvores caídas que bloqueavam o caminho.
Em um determinado ponto uma árvore muito grande impediu a passagem. Descemos da caminhonete e arrumamos as nossas coisas. Ricardo, que voltaria com o carro, nos desejou boa sorte, corrigiu que talvez não era bom necessitar de sorte. Respondi que a sorte começa quando a sabedoria termina, rimos com o ditado improvisado.
Éramos quatro: eu , Elcio, Otaviano e o Cruel. Atravessamos a ponte e iniciamos a caminhada, era 1 hora da manhã do dia 28 de agosto. Após 3 horas estávamos na base da via Mar de Caratuvas. Não era a primeira vez que tentaríamos escalar a via 3 Chapas. Na semana anterior já havíamos chegado próximo da base da via. Mas alguns imprevistos e o erro de cálculo com o tempo obrigariam o retorno.
            Subimos uns 80 metros pela linha da via Mar de Caratuvas e começamos uma diagonal para a esquerda, tentando encontrar as marcas de nossa passagem anterior. Desde esse ponto fora 1 hora e meia de escalaminhada até chegar ao final da crista que torna possível visualizar a linha da via. O final da aproximação foi a sessão mais cansativa, pois tivemos que “nadar” por  mais1 hora e meia entre taquaras.
            Dividimos o grupo em duas duplas- eu e o Elcio, Otaviano e o Cruel – e iniciamos a escalada.
            O Elcio começou na ponta da corda. A linha começava por uma língua de vegetação e, quando começava a rocha, 2 chapas marcavam uma seção mais exigente – regletes e veios de cristal delicados. Após costurar a primeira chapa quebrou uma agarra e o Elcio teve uma queda. Depois passou o lance e seguiu por uma transversal que marcava o início do sistema de fendas.
            A próxima enfiada era uma chaminé que envolvia técnicas diversas - entalamento, oposição, chaminé – e a todo o momento incomodava o peso da mochila sendo arrastada. Dentro da chaminé existia um sistema de fendas para proteção móvel.
            A próxima enfiada era a mais difícil e bonita da via. Elcio começou a enfiada utilizando os dois sistemas de fenda que seguem em paralelo. Utilizava a técnica de tesoura apoiando-se nas duas faces de rocha. Em um ponto é necessário entrar completamente na fenda de off-width da direita, utilizando também a técnica de oposição com os pés apoiados em tufos de capim.
            Era hora de eu iniciar a guiada. A próxima enfiada passava por uma canaleta com vegetação, na parte mais vertical havia um tramo difícil de entalamento de mãos. Enquanto escalava uma informação não saía da minha cabeça: era necessário prestar atenção pois, em determinado momento, era preciso sair da sequência de fendas e seguir pela vegetação. Comecei então a seguir para a direita e, como a corda havia terminado, precisamos escalar em simultâneo para chegar a chapeleta, a última proteção fixa da via.
            Armamos a reunião na chapeleta e segui entre ilhas de vegetação e aderências para retornar ao sistema de fendas. Faltava um tramo de vegetação frágil para instalar uma proteção móvel. Comecei a me equilibrar  com cuidado e, enquanto tentava subir, o capim ia se despedaçando em minhas mãos. Pensei que iria cair e nesse momento fui puxado pela gravidade. Nesse instante tentei imaginar se a chapeleta aguentaria a queda 15 metros em fator 2. Instintivamente consegui deter a queda agarrando-me à vegetação de um pequeno platô. Esse era o momento prenunciado no início da jornada. A sorte estava iniciando e a sabedoria terminando.
            Olhei para o Elcio, ele parecia um pouco preocupado. Respirei e recomecei a escalar. Subi novamente sobre o frágil capim e dessa vez consegui passar o lance.
            Segui por uma canaleta de mato e, quando percebi a proximidade do fim da parede, segui pela esquerda subindo por uns blocos. Era o fim das dificuldades de escalada, o relógio marcava 11:30 hs, havíamos feito a segunda repetição da via.
            Tentamos nos hidratar e comer algo. Como estava muito quente e não havia sombra resolvemos continuar pelo cansativo vara-mato de caratuvas até chegar ao cume do Ibitirati.
            Chegamos ao cume do Ibitirati e aproveitamos a paisagem. Olhando um pouco encontramos a última chapa da via Eco Xiitas que alguns anos antes havíamos escalado.
            No cume do Pico do Paraná, enquanto esperávamos nossos amigos, descansamos e aproveitamos a paisagem. Às 17:00 hs o Otaviano e o Cruel chegaram – terceira repetição da via. Foi uma ocasião especial pois também chegavam o Fábio, o Ermínio,o Gean o e Glaucio, que haviam escalado a via Mar de Caratuvas. Será que em outra ocasião tantas pessoas haviam escalado no mesmo dia o Ibitirati? Não sei a resposta, mas 8 pessoas era um número fora do comum.
            Começamos a descida e nesse final de jornada – com o cansaço acumulado – surgia internamente o dúvida: por que escalamos?
            Depois de anos escalando não sei a resposta, mas Lionel Terray, há décadas, definiu corretamente essa atividade como a Conquista do Inútil - ele tinha razão.
            Próximo à fazenda do Pico Paraná estava o nosso amigo Valdesir nos esperando. Para nossa alegria ele trazia cerveja e cachorro quente. Depois de tanto esforço esse era o nosso paraíso. E como era simples!


Gostaria de agradecer os nossos amigos Ricardo  e Valdesir que gentilmente providenciaram o nosso transporte, obrigado.
Elcio na reunião no final da primeira chaminé

Alessandro na penúltima enfiada



Encontramos a última chapa da via Eco Xiitas

Ibitirati ao final do dia

Paisagem privilegiada

Aproveitando o pôr do sol no cume do Pico Paraná

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Pico Agudo II – Nova via



Este é um relato tardio, mas como diz o lema que talvez expresse alguma sabedoria: antes tarde do que nunca.
Rapel para chegar a base
Estávamos seguindo em direção a Piraí do Sul para conquistar novas vias. Éramos três: Élcio, Val e eu. No meio do caminho surgiu uma provocação, dei a ideia aos amigos para alterar os planos e seguirmos para o Pico Agudo com o intuito de conquistar uma nova via. Surgiu um problema: como não havíamos programado esse tipo de escalada, vários materiais estavam faltando: jumares, cordas fixas, um rack mais completo. Para combater as possíveis dúvidas recordei a máxima patagônica que diz: *Menos é mais. Até agora não sei se meus amigos aceitaram a aventura por concordarem ou simplesmente porque perceberam que não conseguiriam vencer a minha convicção – entenda-se teimosia. 
Acampamos na base da montanha . No outro dia bem cedo subimos até o cume para rapelar a via Porta para o Infinito e chegar à base da parede.
Chegamos  cedo à base da parede. Diante das alternativas para uma nova rota elegemos uma linha que seguia à esquerda da via “Porta para o Infinito”. O Élcio iniciou a escalada guiando a primeira enfiada.  O que parecia fácil revelou-se um 6 sup melindroso  que exigia um bom trabalho de jardinagem.
Quando chegamos a reunião percebemos que a linha mais direta  teria mais uma enfiada independente e depois conectaria com a outra via.  Eu estava relutante em abrir uma variante e insisti que havia observado que à esquerda havia uma sequência de fissuras para continuar uma linha independente.
O Val guiou uma curta enfiada transversal, armou a reunião e pediu para liberar a segurança – com certeza havia encontrado uma continuidade de fissuras.  Novamente pegou a ponta de corda e conquistou uma enfiada de 7a que ao final passava por uma grande quantidade de blocos instáveis e a reunião foi feita em uma árvore.
Chegou minha hora de guiar. O que eu via acima não era muito promissor, a fissura que estava seguindo desaparecia  e teria que fazer alguns movimentos mais exigentes para chegar a outra sequência de fissuras. As fendas estavam com bastante capim e foi preciso bastante trabalho para conseguir encaixar friends e nuts. O final da escalada passava por uma bela fenda de dedos.
Depois do cume ainda tivemos que carregar um peso extra. Algumas pessoas haviam acampado no cume do Pico Agudo e abandonaram muito lixo: barraca, saco de dormir, roupas, comida estragada. Fizemos a nossa parte descendo todo esse lixo, mas infelizmente percebemos que muitas pessoas insistem em deixar os rastros de sua passagem.
A via foi batizada com o nome É disso que eu estou falando e não possui nenhuma proteção fixa ou reunião fixa. Trata-se de uma excelente aventura que, seguindo a tradição, deve ser decidida em cima da hora.
*a expressão menos é mais pode ter diversas interpretações. De um lado pode ser interpretada como quanto menos equipamentos carregamos, mais rápido podemos escalar e maior é o comprometimento e a  aventura. A outra interpretação é que quanto menos coisas carregamos, maior é o sofrimento – menos comida significa mais fome, menos roupa mais frio...


Elcio descendo na escuridão

Paisagem privilegiada

Elcio iniciando a conquista

Elcio e a parede a ser superada

Val com o mar de nuvens ao fundo

Val em ação

Eu na última enfiada

Chegada ao cume

Croqui da via

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

O galo cantou - Pedra do Cantagalo

Na última temporada de inverno conseguimos uma folga para retornar as belas paredes da região serrana do Rio de Janeiro. Fomos para a Pedra do Cantagalo - Petrópolis. 
O Elcio e o Otaviano escalaram a via A soma de todos os medos - 5º VI sup 800 mts. Eu e o Valdesir fomos para a via O galo cantou - 7º VIIc A2 400 mts.
A via é impressionante, um desafio para a escalada livre/móvel, a graduação é mais exigente do que sugere o guia de Petrópolis. Chegamos a noite próximo do cume e na última enfiada - a 10ª -, não conseguimos encontrar as proteções finais.
Alessandro Haiduke






quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O espírito da aventura.


Alessandro Haiduke


Um jovem perguntou a um sábio alpinista chinês o que definia uma grande aventura.
Ele não deu uma resposta de imediato, ficou muito tempo meditando e ao final declarou:

- O que é a aventura?
- A aventura não está em um lugar, perto ou distante.
- A aventura é uma jornada solitária - mesmo em companhia de outros.
- A aventura não começa com um passo ou termina após o último suspiro.
- A aventura não aceita certezas, esbanja interrogações.
- A aventura desvia dos caminhos retos e segue os tortuosos.
- A aventura vive pelos desejos, não se ilude pelos triunfos.
- A aventura anda constantemente ao lado do perigo, mas não se confunde com o pânico.
- A aventura carrega menos, para chegar mais longe.
- A aventura não copia, inventa.
- A aventura não se parece com um dia ensolarado, é antes irmã da neblina.
- A aventura, ah! diante dela somos todos principiantes.
- Algumas coisas podem consumir mais de uma vida, quem me dera eu fosse jovem e tivesse força...- o velho alpinista ficou em silêncio mirando lugar algum.

- Para afinal chegar a uma resposta definitiva a esse questionamento? Perguntou ansiosamente o jovem.

- Não, para continuar sentindo o vazio, que causa tanto espanto ao corpo...

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

A partida de Ricardo Baltazar.


Ricardo com o Fitz Roy ao fundo


Algumas pessoas passam pela vida e acabam marcando nossa existência. Ricardo era uma dessas pessoas. Ele vivia um dia depois do outro, era isso o que importava, não o que poderia ocorrer em meses, anos. Como um verdadeiro errante das montanhas, peregrinava em busca de aventuras. 
Era uma pessoa humilde e de bom coração. Tinha uma motivação fora do comum para realizar seus projetos. Com essa filosofia conseguiu escalar as grandes montanhas andinas: Cerro Fitz Roy, Agulha Poincenot, Cerro Torre, Alpamayo, entre outras.
Nesse mês de agosto, quando eu planejava uma futura viagem para a Patagônia para escalar as belas montanhas e reencontrar velhos amigos, recebi um recado avisando que o Ricardo havia sido encontrado morto no Cânion do Malacara. Ainda não consegui internalizar essa notícia, é estranho pensar que nunca mais o encontrarei no camping Del Lago, com uma garrafa de cerveja na mão, a ponto de ser expulso pelas bagunças que aprontava. É estranho pensar que não poderei mais dividir com ele as cordadas, risadas, roubadas, cervejas.
Infelizmente assim é a vida, incerta como um dia de bom tempo patagônico.
Resta a mensagem vivida na prática por Ricardo e tantas vezes esquecida por nós:
Aproveite a vida.

Adeus, amigo.
Alessandro Haiduke
Aproximação da Agulha Mermoz

Compartilhando cervejas em Chaltén

Ricardo escalando a via Atgentina - Mermoz

Eu e o Ricardo no cume da Mermoz

Ricardo proveitando a paisagem patagônica